Florianópolis fechou 2024 com 9,7 homicídios a cada 100.000 habitantes, a menor taxa entre as 27 capitais brasileiras, segundo o Atlas da Violência 2026 (IPEA / Fórum Brasileiro de Segurança Pública). Esse número da cidade responde a uma pergunta geral. Não responde à pergunta de uma família que já decidiu se mudar por motivos de segurança: dentro de um município com mais de 40 bairros, qual escolher? Este artigo analisa os dados que existem em nível de bairro — e é igualmente honesto sobre os que não existem.
A média da cidade, em contexto
O dado de 9,7 por 100.000 coloca Florianópolis à frente do Distrito Federal (10,9) e de Curitiba (13,2), e bem abaixo da média nacional, próxima de 20. A taxa caiu 33% em dez anos: de 14,5 em 2014 para 9,7 em 2024. No nível estadual, Santa Catarina registrou 8,1 homicídios por 100.000 habitantes em 2024, a segunda menor taxa do Brasil, atrás apenas de São Paulo. São os números de referência habituais, já tratados com mais detalhe em nossa matéria sobre segurança, saúde e educação para famílias estrangeiras. O que falta ali — e o que esta matéria resolve — é a escala de bairro.
O que mostra o levantamento por bairro da SSP-SC
Em 2025, a Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina (SSP-SC) entregou, a pedido da CBN Floripa via Lei de Acesso à Informação, um levantamento de ocorrências policiais por bairro entre janeiro e julho de 2025. O total: 12.687 ocorrências em toda a capital nesse período, entre furto (9.859 casos), lesão corporal leve (1.767), tráfico de drogas (540), roubo (444) e lesão corporal grave (77).
Os dez bairros com mais ocorrências registradas nesse semestre foram:
- Centro — 4.031
- Ingleses do Rio Vermelho — 698
- Canasvieiras — 597
- Capoeiras — 422
- Trindade — 392
- Campeche — 354
- São João do Rio Vermelho — 352
- Estreito — 347
- Agronômica — 257
- Jardim Atlântico — 242
Uma precisão necessária: são contagens absolutas, não taxas por habitante. O Centro concentra sozinho cerca de um terço do total (4.031 de 12.687) porque recebe uma população flutuante de trabalhadores e turistas muito superior à sua população residente. O mesmo ocorre, em menor escala, com os bairros de praia do norte da Ilha na alta temporada. A SSP-SC não publica uma taxa por bairro ajustada à população ou ao fluxo turístico: é uma lacuna real de dado, e preferimos dizer isso a inventar uma taxa que não existe.
Os quatro bairros procurados por famílias que vêm da Rússia
Ingleses. Segundo lugar no levantamento, com 698 ocorrências entre janeiro e julho de 2025. Dados históricos da SSP-SC (também obtidos via Lei de Acesso à Informação) mostram uma tendência de queda nos homicídios do bairro: 16 em 2019, 8 em 2020, 3 em 2021. Em paralelo, os registros de tráfico de drogas subiram de 37 para 61 casos entre 2020 e 2021, um aumento de 64,9%, concentrados sobretudo em dois pontos específicos do bairro (Morro da Lajota e a Servidão Vicentina Custódia dos Santos), não no bairro todo. A imprensa local registrou ainda dois homicídios na região em dezembro de 2025 e março de 2026, em setores que descreve como de alto valor turístico. O dado conjunto: é o bairro de praia com mais ocorrências do norte, com focos de risco localizados, não distribuídos de forma uniforme.
Canasvieiras. Terceiro lugar, com 597 ocorrências no mesmo semestre. Não encontramos um detalhamento por tipo de delito específico para este bairro publicado à parte; o número integra a mesma cesta de furto, lesões, tráfico e roubo do total da cidade.
Campeche. Sexto lugar, com 354 ocorrências. Fica abaixo dos três bairros anteriores e de Trindade no ranking de contagens absolutas do semestre.
Jurerê Internacional. Não aparece entre os dez bairros com mais ocorrências do levantamento da SSP-SC. Isso não equivale a "zero crimes" — o dado simplesmente não o coloca entre os de maior volume absoluto —, mas é consistente com um fator estrutural distinto: é uma península de acesso controlado, com portaria única, ronda privada e cerca perimetral, um desenho urbano que reduz a passagem de trânsito alheio ao bairro. Essa é uma característica de infraestrutura, não uma estatística oficial de criminalidade, e convém não confundir as duas coisas.
O que o dado não diz (e como compensar isso antes de comprar)
Nenhum órgão público de Santa Catarina publica hoje uma taxa de criminalidade por bairro ajustada à população, nem um mapa de calor por rua como existe em outras capitais. O que existe são contagens de ocorrências por bairro, numa janela de tempo específica, sujeitas aos vieses de população flutuante já explicados. Qualquer "ranking de bairros mais seguros" encontrado na internet sem citação à SSP-SC ou ao Atlas da Violência deve ser tratado como opinião, não como dado.
O que é verificável, bairro por bairro e condomínio por condomínio, antes de assinar:
- Portaria 24 horas com controle de acesso registrado, não apenas um segurança visível.
- Cerca elétrica ou muro perimetral contínuo, sem trechos abertos para terrenos vizinhos.
- Iluminação de rua no trecho entre o condomínio e a via principal, percorrida à noite antes de decidir.
- Distância até a delegacia de polícia ou base da Guarda Municipal mais próxima.
Como referência de investimento público, Florianópolis destina cerca de R$ 7 milhões mensais à segurança pública municipal e conta com 183 agentes da Guarda Municipal em toda a cidade, segundo dados divulgados em 2025. É um número da cidade, útil como contexto de política pública, não um indicador de bairro.
O que isso significa para quem vem da Rússia
Se a segurança é o motivo central da mudança, "a capital mais segura do Brasil" é o ponto de partida correto, mas não a decisão completa. Os quatro bairros desta matéria — Jurerê Internacional, Canasvieiras, Ingleses, Campeche — estão entre os mais procurados pelo mesmo perfil de comprador, e os dados disponíveis não dizem o mesmo de cada um: Ingleses e Canasvieiras concentram mais ocorrências absolutas que Campeche; Jurerê Internacional não figura entre os dez bairros de maior volume do levantamento de 2025. Nenhum dos quatro tem uma taxa de criminalidade per capita publicada, então a due diligence final — segurança do condomínio, histórico do prédio, visita noturna — continua sendo do comprador e do seu corretor local, não de uma estatística da cidade.
Fontes
- Atlas da Violência 2026 (IPEA / Fórum Brasileiro de Segurança Pública) — taxa de homicídios por capital e por estado, dados de 2024, via ND Mais e FloripaManhã (maio de 2026).
- Secretaria de Segurança Pública de Santa Catarina (SSP-SC), via Lei de Acesso à Informação a pedido da CBN Floripa — ocorrências por bairro, janeiro-julho de 2025, divulgado por NSC Total.
- SSP-SC via Lei de Acesso à Informação — homicídios e tráfico de drogas em Ingleses, 2019-2021, divulgado por NSC Total.
- SSP-SC, 2025-2026 — homicídios em bairros de praia do norte da Ilha, divulgado por NSC Total.
- Boletim Mensal de Indicadores, SSP-SC (fonte primária oficial).
- Investimento em segurança pública municipal e efetivo da Guarda Municipal, 2025 — MySide.