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Residência

Visto de nômade digital: morar em Florianópolis sem investir R$ 1.000.000

Para profissionais russos de tecnologia que já trabalham remoto, o caminho para a ilha não passa pela compra de um imóvel.

9 set. 2026
Visto de nômade digital: morar em Florianópolis sem investir R$ 1.000.000

O visto de investidor imobiliário no Brasil exige comprar um imóvel por, no mínimo, R$ 1.000.000. O visto de nômade digital, ao contrário, não exige nenhuma compra: basta comprovar uma renda remota de US$ 1.500 por mês. Para boa parte dos profissionais russos de tecnologia que chegaram a Florianópolis a partir de 2022 e já trabalham remoto, essa diferença define qual caminho vale a pena tomar primeiro.

O que exige o visto de nômade digital

O Brasil criou essa categoria migratória em 2021, pela Resolução CNIg n.º 45 (VITEM XIV). Ela vale para quem trabalha remoto para um empregador ou clientes fora do Brasil: não autoriza faturar nem se empregar localmente. O candidato precisa comprovar renda mensal de US$ 1.500 ou, como alternativa, saldo bancário de pelo menos US$ 18.000. Somam-se dois requisitos menores: seguro-saúde válido no Brasil e certidão de antecedentes criminais sem registros.

A residência inicial dura um ano e admite uma renovação por igual período, com teto de dois anos nessa categoria. Um ponto que vale esclarecer antes de planejar a mudança: o visto de nômade digital não se converte sozinho em residência permanente, por mais renovações que acumule. Quem quer ficar mais de dois anos precisa migrar para outra via —investimento, emprego formal, reunião familiar— antes do vencimento do segundo período.

A alternativa à via de investimento

A outra porta de entrada comum para um estrangeiro com capital disponível é a residência por investimento imobiliário (Resolução CNIg n.º 36/2018). Ela exige comprar no Brasil um imóvel urbano por pelo menos R$ 1.000.000, com recursos próprios de origem externa. Santa Catarina, por estar na região Sul, não tem acesso ao piso reduzido de R$ 700.000 válido apenas no Norte e no Nordeste.

Para um profissional de TI que recebe em dólares ou euros, mas não tem um milhão de reais disponível, essa via fica fora de alcance no curto prazo. O visto de nômade digital resolve o mesmo problema —morar legalmente em Florianópolis— sem exigir uma compra. A diferença entre os dois, resumida:

  • Nômade digital (VITEM XIV): renda de US$ 1.500 por mês ou reserva de US$ 18.000; sem compra de imóvel; residência de até 2 anos; não leva sozinha à residência permanente.
  • Investidor imobiliário (RN 36/2018): compra a partir de R$ 1.000.000; presença mínima de 14 dias a cada 2 anos; residência temporária que pode virar permanente mantendo o investimento.

São caminhos com lógicas diferentes, não etapas do mesmo trâmite. O nômade digital resolve o curto e o médio prazo; o investidor mira se instalar de forma permanente desde o início.

Por que Florianópolis, especificamente

A ilha reúne dois fenômenos que, mesmo separados, já explicam boa parte da escolha. O primeiro é tecnológico: Florianópolis passou de 2.029 empresas de TI em 2018 para 6.433 em 2024, e o setor faturou R$ 12.800 milhões naquele ano, 25% do PIB municipal. O emprego formal em tecnologia chegou a 45.600 postos em 2024, um salto de mais de 70% em relação aos 26.800 de 2020. Isso coloca a cidade como a quarta do Brasil em empregos tech, atrás apenas de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Em 2025, as startups locais captaram mais de R$ 787 milhões em investimento.

O segundo fenômeno é a própria comunidade russa. Segundo dados oficiais divulgados em 2025, Florianópolis concentra 1.170 dos 1.300 russos registrados em Santa Catarina, a maior concentração do país. Essa presença já é visível em bairros como Ingleses, com placas em russo. Convive, ainda, com um fluxo distinto e mais amplo: a cidade foi o segundo destino que mais cresceu no mundo para nômades digitais nos últimos cinco anos. Cerca de 5.666 profissionais remotos eram projetados para 2025, 224% a mais que em 2018. São dois dados separados, que não devem ser confundidos, mas convivem nos mesmos bairros. Isso explica por que um profissional russo de TI encontra na ilha tanto conterrâneos quanto um ecossistema de trabalho remoto já consolidado.

Morar de aluguel antes de comprar

O visto de nômade digital não exige comprar, e na prática a maioria de quem chega por essa via começa alugando. Um apartamento mobiliado de um dormitório em Florianópolis costuma partir de R$ 1.500 a R$ 1.990 mensais, segundo levantamentos de portais imobiliários locais em 2026. Somando condomínio (entre R$ 350 e R$ 490), IPTU, taxa de lixo e seguro-incêndio, o custo mensal total de uma unidade mobiliada fica entre R$ 2.150 e R$ 2.360.

Diante da renda mínima exigida de US$ 1.500 mensais, esse custo de moradia deixa margem para viver sem aperto em bairros com boa conectividade, como Lagoa da Conceição, Campeche ou o próprio Ingleses. É também o período natural para conhecer o mercado —preços por bairro, tipo de prédio, distância da praia— antes de decidir comprar mais adiante.

O caminho até comprar, se chegar a hora

Nada impede um titular do visto de nômade digital de comprar um imóvel em Florianópolis: a compra não exige nenhum status migratório específico, apenas um CPF. O que muda é a ordem da decisão. O investidor compra primeiro para obter a residência. O nômade digital, por sua vez, pode alugar por dois anos e conhecer a ilha por dentro. Depois pode comprar, já com a via de investimento disponível —não obrigatória— caso decida se instalar de forma permanente.

A pergunta prática, então, não é qual visto é melhor, mas o que cada um resolve. A via do nômade digital resolve a renda remota sem capital imobilizado. A via do investidor resolve o caso de quem tem capital disponível e quer residência permanente desde o primeiro dia.

Fontes

  • Resolução CNIg/MJSP n.º 45/2021 (VITEM XIV, nômade digital) — Portal de Imigração, Ministério da Justiça e Segurança Pública.
  • Resolução Normativa CNIg n.º 36/2018 (residência por investimento imobiliário) — Portal de Imigração.
  • Observatório ACATE / TI Inside — peso do setor tecnológico no PIB de Florianópolis (2024-2025).
  • ACATE — Florianópolis, quarta cidade do Brasil em empregos de tecnologia.
  • Ministério da Justiça e Segurança Pública / OBMigra — registros de imigrantes russos por cidade (divulgado em 2025).
  • Observatório de Nômades Digitais de Florianópolis / imprensa local — crescimento de profissionais remotos.
  • Portais imobiliários (ZAP Imóveis, Imovelweb) — preços de aluguel de apartamentos mobiliados em Florianópolis (2026).
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